MÓBILE DE IMAGENS

 

Agnaldo Farias

São Paulo - Setembro 1989

As fotografias de Isabella Cox Cabral revelam a maneira como uma cidade passa a viver em nós. Se é certo que com o nosso corpo habitamos as cidades e nos compomos com um espetáculo incessante que acontece à nossa volta, lentamente, pelo efeito sucessivo das sensações que a vida urbana nos despeja cotidianamente, elas, cidades, passam a nos habitar, vindo morar na nossa memória, no nosso corpo, nos nossos gestos e hábitos rotineiros, nos nossos sentidos já acostumados aos ruídos que rasgam a atmosfera e ao halo de fumaça que turva a vista e tinge o entardecer refletido nas vidraças dos prédios altos.

As colagens de Isabella são sobre a cidade do Rio de Janeiro. Mas o que é o Rio de Janeiro senão um labirinto infinito de imagens? A mais vista das nossas cidades, a mais cantada e a mais idealizada, qual seria sua verdadeira face? O Rio se divulga para o mundo e se fixa no nosso imaginário de pessoas ansiosas por visões paradisíacas, em paisagens e cenas prontas para o consumo. Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, Arcos da Lapa, Baía da Guanabara, as mulheres de Ipanema e as escolas de samba da Marquês de Sapucaí, são fragmentos estereotipados de uma beleza que se apresenta nas páginas impressas das revistas, nos comerciais televisivos e nessas janelas urbanas: os out-doors. Há também o cinema, esta arte tão consagrada à ilusão, que desde Carmen Miranda e Zé Carioca, empresta à paisagem, além de algum rítmo caribenho, as cores das araras, dos papagaios e dos coqueiros e os sabores das bananas, abacaxis, limões e melancias.

Mas existem outros Rios além dessa trama tropical que nos vendem. O Rio que visitamos algumas vezes e cuja experiência abrigou-se na nossa memória: um passeio pela Cinelândia, uma lâmina do mar vista entre prédios, o tráfego tenso da Avenida Brasil, uma cêrca de bambús marcando o limite de uma favela, uma luminosidade tão intensa que dissolve a paisagem, uma lembrança que o corpo traz do calor e do suor…

Há, finalmente, um Rio que não conhecemos, feito de fachadas de casas que não vimos, da mesma massa monótona de arranha-céus das grandes cidades, de vielas estreitas e escondidas, dos lugares que visitamos e esquecemos, de toda vida recôndita que insiste em permanecer secreta. Esse outro Rio, espaços em sombras, assemelha-se com todas as outras cidades que conhecemos, todas elas construídas por cenas e esquinas banais ou meramente desconhecidas.

Fotografias e/ou colagens, a artista gráfica Isabella Cabral compõe com olhar apurado um painel móvel, um móbile de imagens cariocas. Nelas estão presentes, sob a lógica da sobreposição, do enquadramento e da fusão cromática, as imagens reais ou puramente simbólicas de uma cidade que tanto amamos porque também, muitas vezes, nos ensinaram a amar. Uma cidade que ao se constituir no signo da beleza, entranhou-se na nossa pele e na nossa memória e transformou-se no sonho da cidade que desejamos e que não temos.